Monday, June 25, 2018

Noite efêmera





Será (tambem) de um outro tempo o testemunho
Do amor que é cada
 meu instante
Junto a ti

Quando desencavarem de um
Eterno outrora
A xícara de porcelana e
Declararem:
Eis que já bebiam lá café

Não saberão da graça desta noite,
Ó cara mia,
Nem do teu vestido
Nem da lua aguada
E toda nossa fé.

Monday, June 18, 2018



Sabe a noção de sublimar?
eu olho a noite fria e um mar imenso
de refletir estrelas - perenemente a séculos
a refletir estrelas
e a tua mão um acalento mesmo humano, sacro
e a tua voz... espécie de bálsamo.
esta noção de sublimar...
lancemos qualquer coisa à água à noite
dois barquinhos de papel
esta noção de sublimar...


Nos barquinhos de papel
e nas asas dos passarinhos
cruzaremos rios, mares
e os vendavais dos caminhos


Deste-me o tempo,
mas sem ti ele não corre;
como pérola ante à Lua
aspira a eternidade
expira e morre...

A ponte


Veio o homem até a ponte. Olhou ao redor: nada viu. Trouxe o buquê de rosas púrpuras até o esteio e apronta-se a lançá-las, finas pétalas em turva água, mas um frio lhe perpassa a mão... ou antes, o braço na parte superior, em que encontra a mão.

Não é que não tivesse nunca sentido um toque frio em outra vez antes, fosse do vento, fosse de pessoa; Mas é que alguma coisa de suavidade estranha, uma calma lentidão a lhe encher de frio que parecia bem intencionada, o espantou.

A moça talvez só quisesse saber das horas ou nem isto. Era um horizonte imenso: um refletir de água e as luzes da cidade divididas entre as duas margens do rio... estrelas em aglomerado, indecifráveis. E a mancha da Lua na água; saber por que notara aquele homem ali, ainda estando escura a ponte e eles sós?

Chamemo-nos de dois, ambos os dois, um par; posto que o toque de mãos é sem dúvida o que mais caracteriza a união entre entes humanos, e, ainda que com justiça poderia-se argumentar que o ato foi unilateral da parte dela, contudo, num exame mais neutro compreendemos que sua imediata receptividade, o sentimento mesmo de um frisson de mistério já mais do que justificaria a descrição; ora, passados anos e vivessem estes dois em frio apartamento entre afazeres pouco descritíveis numa história, quê em menos estaria este encontro de mãos em íntima cumplicidade do que muitos outros?
Mas trata-se de dois estranhos! Sem dúvida, mas deve-se contudo admitir que os instantes futuros, se não ditados por sombra desvelada, são ao menos parcialmente cúmplices ou harmônicos, na indecisão do instante agora há ao menos algo que seja resultado do passado; assim, caso estes dois seres soltos na bruma de uma ponte notoriamente malcuidada pela sociedade humana por ventura mantiverem qualquer inicial contato (e o prosseguimento do texto intenta dar conta disto mostrar), não se tratam de certo, já na descrita cena, de dois completos estranhos; não.

São como um casal realmente, e o instante deste toque pode sublimar como um casamento; vindo místico, como que de um breu de lapsos distintos de vida mal encontrada, ou antes, aos poucos se remendando e concertando para aquele instante: do toque de mãos, do encontro d'almas. Houvesse um anjo com uma harpa a flutuar com lira naquele instante, de certo entoaria, com um dos pés de anjo por vezes a encostar na gélida e ainda chuvosa alpendrada da ponte:

Dois, que fizeram seus caminhos
entre os breus deste universo
dois, na vida encontraram dobra,
abrigo, regresso

dois que doravante serão um
foi-se o tempo doisdivano
de perambular em vão
eis que formam um então.

Ora, e quem disse que não havia? Se há mesmo nas encostas rurais das grandes cidades grutas entrelaçadas e profundas que são tocas de milmilhares de morcegos que em seu redemoinhoso calcar os céus nas madrugadas perexistem em número maior que o de almas humanas - e vê-se, que fala-se aqui de grandes metrópoles - quem dirá não existir também mui numerosos anjos a galgar o ar a cada instante? Com sua presença tênue e efêmera sorvendo a graça dos lugares e instantes que aos seres terrenos soem por vezes parecer de asco ou tédio? Fato é que talvez houvesse mesmo um anjo naquele instante - se há instantes de anjo - posto que

Wednesday, June 6, 2018

Pra tudo



Pra tudo é preciso medida.
Até pra um amar desmedido?
ela me disse isso e eu perdi a rima

juntei sete velas, contratei marujos
fiz-me de Simbá

E ante o vendaval que nos beijava
eu lhe disse, contudo, ao pé do ouvido:
eis que já é hora de voltar.

Pra tudo nesta vida é preciso medida,
dois cafés, e megalomania...

Tuesday, June 5, 2018




Nas delicadas horas
no se-ir dos dias
havia de dizer que
não havia
outra via
nem haveria
que a de dizer-te
nas delicadas horas
no se-ir dos dias
que todavia
não queria pois findar esta cantiga
toda vida
no se-ir dos dias
nas delicadas horas
havia de dizer que
ainda havia
toda via.

nas delicadas horas
no se-ir dos dias...

Se a noite é linda, e a Lua um camafeu,
diante a meu canto por que faz-te de Odisseu?


Se o silêncio não fosse dizer tanto...
eu lhe faria uma canção apenas
e a entoaria numa harpa extrema
em escarpado monte
sabendo-te a dona de toda terra
até o horizonte...

E o canto adentraria tua janela
na manhã singela
que se repete
sob certa espécie de eternidade.

soprados dedos a estender cortinas
de renda fina
e um ou outro deletrear do coração...

se o silêncio não fosse dizer tanto...


Se quero te cantar a noite inteira
por degraus esparsos
dentre mudos mármores
e o vazio do silêncio
se quero te cantar a noite toda
na mesma toada
que cantava outrora
nesta mesma noite
o vento
que eu ouvi que se enamora...
será toda brisa teu
perfume palavra
que segredo o gosto
mas é vida, é rosa e brasa;
será todo vento
este pensamento:
ouça o teu cantor
que te declara...

(E declararia
fosse ao meio dia
d'ua final bastilha...
fosse à meia noite
do dilúvio...)


Porque se perguntar direi de certo
que a clara Lua é esfinge
que finge que declara o meu amor no firmamento
e embora tinja de ternura 
a noite vasta
não traz candor algum neste momento,
nem acalento...

Monday, June 4, 2018



Assim, possuído pela vã glória e desejoso de legar qualquer coisa à posteridade, quis lucrar, também eu, da liberdade de fingir, e, uma vez que não tinha nada de verdadeiro a contar, não tendo nunca vivido uma aventura digna de interesse, revesti-me da mentira; mas minha maneira de mentir é muito mais honesta que a de outros; pois que há ao menos um ponto em que serei verídico, que é em avisar que sou um mentiroso. Penso assim escapar à censura do mundo confessando-me pessoalmente que não digo nada de verdadeiro. Vou então contar coisas que nunca vi, nem experimentei, nem escutei da boca de ninguém, coisas que não existem de maneira alguma e que não podem absolutamente existir. Por conseguinte, meus leitores não devem dar-me nenhuma fé.




E sem me dar a chance de lhe responder, o que não poderia fazer, tanto sua presença assombrosa havia me colocado fora de mim, ele me pegou pelo meio do corpo, me atirou fora da sala; e se lançando ao ar, levou-me até o céu com tanta força e rapidez, que apercebi-me antes já estar tão no alto, que do caminho que me havia feito percorrer em poucos instantes. Ele desceu, entretanto, direto à terra; e fazendo-a entreabrir batendo os pés, se afunda, e deste modo eu me encontrava em um palácio encantado, diante à bela princesa da ilha do Ébano.

Mas, alas! Que espetáculo! Vi uma coisa que me pinçou o coração... Esta princesa estava nua e toda em sangue, estendida sobre a terra, mais morta que viva, e seus joelhos(?!) banhados de lágrimas. "Pérfida!" - disse-lhe o gênio me mostrando a ela, "não é este teu amante?" Ela lança seus olhos lânguidos sobre mim e responde tristemente:

"Não o conheço, jamais o vi que neste momento..."
"Quê?! Responde o gênio, ele é a causa de você estar no estado em que justamente se encontra, e ousa dizer que não o conhece!"
"Se não o conheço, disse-lhe a princesa, queres que eu diga uma mentira que seja causa de sua perda?"
"Eh, bem, disse o gênio, tirando um sabre e o mostrando à princesa, se você nunca o viu, pegue este sabre e corte-lhe a cabeça."
"Alas!" Disse a princesa, "como poderia executar o que você exige de mim? Minhas forças são tal qual evaídas que não saberia levantar o braço... E quando mesmo pudesse, teria eu a coragem de dar morte a uma pessoa que não conheço, a um inocente?!"
"Esta recusa", disse o gênio à princesa,"me faz conhecer todo teu crime." Em seguida, se virando em minha direção: "E você, disse-me ele, não a conhece também?"


Se fores me escutar ao pé da Lua,
eu te daria efêmeras razões pra não adormecer...