Monday, June 18, 2018
A ponte
Veio o homem até a ponte. Olhou ao redor: nada viu. Trouxe o buquê de rosas púrpuras até o esteio e apronta-se a lançá-las, finas pétalas em turva água, mas um frio lhe perpassa a mão... ou antes, o braço na parte superior, em que encontra a mão.
Não é que não tivesse nunca sentido um toque frio em outra vez antes, fosse do vento, fosse de pessoa; Mas é que alguma coisa de suavidade estranha, uma calma lentidão a lhe encher de frio que parecia bem intencionada, o espantou.
A moça talvez só quisesse saber das horas ou nem isto. Era um horizonte imenso: um refletir de água e as luzes da cidade divididas entre as duas margens do rio... estrelas em aglomerado, indecifráveis. E a mancha da Lua na água; saber por que notara aquele homem ali, ainda estando escura a ponte e eles sós?
Chamemo-nos de dois, ambos os dois, um par; posto que o toque de mãos é sem dúvida o que mais caracteriza a união entre entes humanos, e, ainda que com justiça poderia-se argumentar que o ato foi unilateral da parte dela, contudo, num exame mais neutro compreendemos que sua imediata receptividade, o sentimento mesmo de um frisson de mistério já mais do que justificaria a descrição; ora, passados anos e vivessem estes dois em frio apartamento entre afazeres pouco descritíveis numa história, quê em menos estaria este encontro de mãos em íntima cumplicidade do que muitos outros?
Mas trata-se de dois estranhos! Sem dúvida, mas deve-se contudo admitir que os instantes futuros, se não ditados por sombra desvelada, são ao menos parcialmente cúmplices ou harmônicos, na indecisão do instante agora há ao menos algo que seja resultado do passado; assim, caso estes dois seres soltos na bruma de uma ponte notoriamente malcuidada pela sociedade humana por ventura mantiverem qualquer inicial contato (e o prosseguimento do texto intenta dar conta disto mostrar), não se tratam de certo, já na descrita cena, de dois completos estranhos; não.
São como um casal realmente, e o instante deste toque pode sublimar como um casamento; vindo místico, como que de um breu de lapsos distintos de vida mal encontrada, ou antes, aos poucos se remendando e concertando para aquele instante: do toque de mãos, do encontro d'almas. Houvesse um anjo com uma harpa a flutuar com lira naquele instante, de certo entoaria, com um dos pés de anjo por vezes a encostar na gélida e ainda chuvosa alpendrada da ponte:
Dois, que fizeram seus caminhos
entre os breus deste universo
dois, na vida encontraram dobra,
abrigo, regresso
dois que doravante serão um
foi-se o tempo doisdivano
de perambular em vão
eis que formam um então.
Ora, e quem disse que não havia? Se há mesmo nas encostas rurais das grandes cidades grutas entrelaçadas e profundas que são tocas de milmilhares de morcegos que em seu redemoinhoso calcar os céus nas madrugadas perexistem em número maior que o de almas humanas - e vê-se, que fala-se aqui de grandes metrópoles - quem dirá não existir também mui numerosos anjos a galgar o ar a cada instante? Com sua presença tênue e efêmera sorvendo a graça dos lugares e instantes que aos seres terrenos soem por vezes parecer de asco ou tédio? Fato é que talvez houvesse mesmo um anjo naquele instante - se há instantes de anjo - posto que
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